G20 e a revolução energética: oportunidades e desafios em Singapura e Angola
A primeira matéria da série “Transições Energéticas: Caminhos para um mundo sustentável” mostra como dois países tão diferentes como Singapura e Angola lidam com a transição do uso de combustíveis fósseis para fontes de energia limpas e renováveis. A série é um panorama de como andam as transições energéticas em países membros e convidados do G20 para revelar um pouco sobre a importância do tema, os desafios e as oportunidades para o futuro.

Por Thayara Martins/ G20 Brasil
O aumento da temperatura da Terra ocasionada pela emissão de gases na atmosfera, como o dióxido de carbono (CO2,) tem ocasionado situações bem concretas diante dos olhos de todos, como os prejuízos da maior seca no Brasil em 70 anos e a devastação recente nos Estados Unidos com a passagem do furacão Milton. Desmatamentos, poluição industrial, queimadas, o setor de transportes, as emissões têm muitas fontes. Entretanto, os caminhos para reduzir a utilização dos combustíveis fósseis e investir em novas matrizes energéticas são muitos.
De acordo com o estudo do think tank Ember, os países do G20 foram responsáveis por 84% da demanda mundial de eletricidade, em 2023. Alguns de seus países membros são os maiores emissores de gás de efeito estufa como China, Estados Unidos, Rússia, Índia e União Europeia. No entanto, desde o Acordo de Paris, adotado em 2015, 60% dos países do G20 avançaram no processo de mudança da matriz energética e reduziram, por exemplo, sua participação de carvão em vários graus. Além de que a maioria dos países do G20 começou a utilizar energia eólica e/ou solar em escala. Tanto que 41% da eletricidade do G20 foi gerada a partir de fontes limpas no ano passado, acima da média global de 39%.
No caso brasileiro, a participação de renováveis na matriz elétrica foi de 89,2%, em 2023, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). E o país possui uma política consolidada de apoio aos biocombustíveis que vem se desenvolvendo desde os anos 1970 como o Proálcool.
Cecília destaca que as mudanças foram financiadas com recursos próprios do país, que não receberam fundos de compensação do clima, porém se tiver apoio internacional pode ser feito muito mais. “Angola tem trazido para o G20 a visão de um país menos avançado, de um país também vulnerável às alterações climáticas e que faz parte dos países ainda mais pobres, mas que tem uma visão de descarbonizar a sua economia e ter desenvolvimento. Então, se realmente vierem os desembolsos prometidos, nós podemos efetivamente alcançar níveis maiores”, disse.
Porém, mudar um sistema de produção de energia que tem mais de 100 anos não é uma tarefa fácil e não vai acontecer de forma rápida. Além de questões geopolíticas sensíveis devido às distintas realidades entre as nações, desenhadas primeiro por suas geografias e depois por tecnologias de extração, produção e geração de energia desenvolvidas ao longo da história. Por isso, a série vai mostrar como países com diferentes culturas e níveis econômicos podem se unir e equilibrar as diferenças em favor de um planeta mais sustentável.
Vivendo em uma ilha sem recursos minerais

Singapura é uma ilha ensolarada localizada no sudeste da Ásia, no extremo sul da Península Malaia. A cidade-estado tem cerca de 710 quilômetros quadrados e é habitada por cinco milhões de pessoas, de acordo com estimativa do Banco Mundial de 2023. Com uma boa posição geográfica, Singapura é um grande centro de distribuição e transferência de mercadorias para a região da Ásia-Pacífico. O clima é quente e úmido, sem grandes flutuações de temperatura ao longo do ano. A principal matriz energética é o gás natural importado por meio de gasodutos de países vizinhos. Os setores agrícola e de mineração são praticamente inexistentes, sendo o setor de serviços o mais relevante para a economia. Segundo um estudo do Ministério das Relações Exteriores (MRE), a indústria naval do país tem uma ligação significativa com o setor petrolífero brasileiro. O porto de Singapura opera o segundo maior terminal de contêineres do mundo, depois de Xangai, e é um grande centro de distribuição de mercadorias do continente asiático. Portanto, tem sido um fator-chave para o crescimento da economia no país.
Singapura é um país convidado pela presidência brasileira do G20 a participar dos debates junto com os países-membros do bloco. Jonathan Goh, diretor de Relações Externas da Autoridade do Mercado de Energia de Singapura, um conselho estatutário sob o Ministério do Comércio e Indústria, esteve em uma das reuniões do Grupo de Trabalho de Transições Energéticas. Ele comentou que o uso do gás natural representa 40% das emissões de gases poluentes em seu país e que as prioridades da presidência brasileira do G20 tem o apoio de Singapura.
“Apoiamos a ideia da presidência brasileira do G20 de uma transição energética sustentável, justa e inclusiva, acreditamos que não podemos e não devemos deixar ninguém para trás. Precisamos de políticas energéticas que facilitem as boas oportunidades de emprego para todos, à medida que transformamos a economia e avançamos seguindo em direção a um futuro energético mais sustentável”, afirmou.
Jonathan enfatizou que, por ser uma ilha dependente de recursos naturais que vem de fora, Singapura tem interesse em cooperar com outros países para ter acesso aos diferentes suprimentos e recursos de energia negociados no mercado. Para ele, o mundo está conectado e é possível alcançar as diferentes necessidades dos países. Mas é preciso pensar no financiamento para essas transições energéticas e no papel dos bancos multilaterais porque nenhuma nação fará uma mudança dessa magnitude sozinha.

“Para ajudar a facilitar a transição energética, nós como um centro financeiro, faremos o que pudermos para promover um alcance regional para facilitar a transição não apenas na Ásia. Porque sem financiamento será desafiador para muitos países. Além de que queremos compartilhar experiências com a presidência do Brasil no G20 e facilitar mais conversas. Queremos apoiar o trabalho em conjunto para um mundo melhor”.
Com financiamento se vai ao longe
Angola também é país convidado pela presidência brasileira do G20 a colaborar com as discussões. O país tem 1.246.700 de quilômetros quadrados onde vivem 36 milhões de pessoas, de acordo com dados do Banco Mundial em 2023. Ao contrário de Singapura, Angola é rica em recursos minerais, entre os quais se destacam petróleo, gás natural, diamantes, ouro e rochas ornamentais. O clima é intertropical com duas estações: uma chuvosa e outra seca.
Segundo Cecília Silva Bernardo, Diretora Nacional para Ação Climática e Desenvolvimento Sustentável, do Ministério do Ambiente da Angola, a matriz elétrica do país evoluiu para fontes mais limpas. Ao todo, por volta de 64% é composta por fontes de energia limpa, sendo 60% por hidrelétricas e 4% de energia solar fotovoltaica, incluída desde o ano passado na geração de energia. Além disso, o uso de diesel em geradores caiu de 61%, em 2015, para 36% em 2023.

Cecília destaca que as mudanças foram financiadas com recursos próprios do país, que não receberam fundos de compensação do clima, porém se tiver apoio internacional pode ser feito muito mais. “Angola tem trazido para o G20 a visão de um país menos avançado, de um país também vulnerável às alterações climáticas e que faz parte dos países ainda mais pobres, mas que tem uma visão de descarbonizar a sua economia e ter desenvolvimento. Então, se realmente vierem os desembolsos prometidos, nós podemos efetivamente alcançar níveis maiores”, disse.
Na sua visão, a presidência brasileira do G20 é muito dinâmica e tem a capacidade de envolver países de diferentes estruturas regionais, não só os mais ricos, mas também os em desenvolvimento e os com baixos níveis de capital para investimento. Sendo assim, para ela, é uma presidência “muito perspicaz porque permite ter nas discussões a visão do outro lado, a visão dos países do Sul Global e da forma como está sendo feito é possível ter a visão dos dois lados. O que ajuda na tomada de decisão e a orientar os acordos que estão sendo negociados”.
Além da dificuldade financeira, como em outros países, a capacidade técnica e de desenvolver tecnológico para fazer uma transição são alguns dos desafios de Angola. Apesar disso, o país está para aprovar uma estratégia de eletromobilidade para inclusão de veículos elétricos e trabalhando para a descarbonização do setor petrolífero. E vem se esforçando para cumprir compromissos internacionais e o Acordo de Paris.