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TRANSIÇÕES ENERGÉTICAS

G20 e a revolução energética: energia solar e eólica são as apostas sustentáveis do Oriente Médio

A segunda matéria da série “Transições Energéticas: Caminhos para um mundo sustentável” revela dados sobre a matriz energética e nuanças entre os países do Oriente Médio, região produtora e exportadora de petróleo. A série apresenta um panorama sobre as transições energéticas em países membros e convidados do G20, reforça a importância do tema e desvenda desafios e oportunidades para o futuro.

01/11/2024 07:00 - Modificado há um ano
Usina de energia eólica na Turquia. Crédito: Getty images.
Usina de energia eólica na Turquia. Crédito: Getty images.
Por Thayara Martins/ G20 Brasil

As hidrelétricas são o pulmão da matriz e segurança energéticas do Brasil, assim definiu o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. De fato, de acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), cerca de 12% da água doce do planeta está em território brasileiro onde milhares de rios atravessam o país - entre os maiores estão os rios Amazonas, Araguaia, São Francisco, Parnaíba e Paraná. Em razão disso, o potencial hidrelétrico é bastante aproveitado em bacias hidrográficas como a do Paraná e a do Tocantins-Araguaia.

É uma riqueza natural que contribui para a liderança do Brasil no uso de energias limpas e renováveis. No entanto, há nações que se desenvolveram em desertos escaldantes. Então, como fazer uma transição global entre países com geografias tão diferentes que proporcionaram o desenvolvimento de matrizes energéticas variadas entre si? Além disso, como financiar a mudança quando as condições financeiras são igualmente divergentes entre as nações?

[...] muitos países no Oriente Médio e Norte da África veem uma vantagem na luz do sol que gera oportunidade para implementar projetos de energia sustentável em terras com níveis incríveis de radiação solar. Além disso, pode abrir portas para outras formas de industrialização e avançar em direção a uma nova economia. Tudo, claro, se as nações conseguirem obter a tecnologia necessária para acelerar a transição energética dentro de suas próprias fronteiras.

No deserto, o sol pode ser um aliado

O Oriente Médio tem aproximadamente 7,2 milhões de quilômetros quadrados, onde vivem cerca de 270 milhões de pessoas distribuídas entre 15 países. É um lugar que passa por conflitos entre os povos há pelo menos 5 mil anos, como é possível perceber através dos relatos da Bíblia e da Epopeia de Gilgamesh, um poema épico da literatura suméria.

Em termos de hidrografia, a região do Oriente Médio pode ser situada em um extremo oposto ao do Brasil. É uma terra árida onde os rios mais conhecidos são também lendários: Tigres e Eufrates, pois em suas margens floresceram os sumérios e os babilônios na antiga Mesopotâmia; e o rio Jordão, em Israel, junto com o rio Nilo, no Egito, que são referências bíblicas. O clima é semi-árido e desértico com poucas chuvas ao longo do ano, sendo a água um recurso escasso na região.

Em contrapartida, petróleo não falta. A região é a maior produtora e exportadora de petróleo do mundo. Os países são movidos quase exclusivamente a gás e petróleo, com pouca dependência de carvão. Segundo um estudo do think tank Ember, apenas 5% da eletricidade do Oriente Médio foi gerada por fontes limpas no ano passado. Entretanto, existem nuanças entre os países, não é um território homogêneo.

De acordo com o mesmo estudo, nove países do G20 aumentaram a participação do gás em suas matrizes energéticas desde 2015, com a Arábia Saudita apresentando o maior aumento, de 47% para 67%. O Reino dependeu quase inteiramente de combustíveis fósseis (99,8%) para sua geração de eletricidade em 2022, enquanto seu vizinho Emirados Árabes Unidos gerou 17% de sua eletricidade de fontes de energia limpa no mesmo ano. Em compensação, a Turquia atingiu um equilíbrio. O país gerou 42% de sua eletricidade a partir de fontes limpas e 58% a partir dos combustíveis fósseis em 2023. O que fez a Turquia ficar acima da média global de 39% em termos de geração de energia limpa no ano passado.

Já o Egito gerou 12% de sua eletricidade a partir de fontes limpas no mesmo período, e ainda depende 88% de combustíveis fósseis. A maior fonte limpa do país é a hidrelétrica (7%), por outro lado a eólica e a solar estão começando a crescer. Em 2015, compreendiam só 1% ante 5% agora. Nas últimas duas décadas, a demanda de eletricidade do Egito mais que dobrou, assim como suas emissões do setor de energia. O país tem como meta 42% de eletricidade renovável até 2030. E a Jordânia demonstra como é possível avançar cada vez mais, pois 23% de sua eletricidade foi produzida por ventos e energia solar em 2023.

Estação de energia solar em Dubai nos Emirados Árabes Unidos. Crédito: Getty images.
Estação de energia solar em Dubai nos Emirados Árabes Unidos. Crédito: Getty images.

No âmbito do G20, a Arábia Saudita e a Turquia são países-membros, enquanto Egito e Emirados Árabes Unidos são países convidados. Para compreender como o tema das transições energéticas é encarado na região, o G20 conversou com Karim Elgendy. Ele é especialista em clima do Oriente Médio, acadêmico sênior não residente no Middle East Institute, em Washington, nos Estados Unidos, e membro associado da Chatham House, um think tank que debate temas de política internacional em Londres, na Inglaterra.

Segundo Karim Elgendy, as nações produtoras de petróleo e gás certamente estão preocupadas com o ritmo e a escala da transição por razões compreensíveis. O principal receio, no momento, é a velocidade da própria diversificação econômica e da própria transição energética para outras fontes de energia. Porque se o mundo os deixar para trás, eles não se prepararam o suficiente, o que significa que podem ficar em pior situação com essa mudança.

Por outro lado, muitos países no Oriente Médio e Norte da África veem uma vantagem na luz do sol que gera oportunidade para implementar projetos de energia sustentável em terras com níveis incríveis de radiação solar. Além disso, pode abrir portas para outras formas de industrialização e avançar em direção a uma nova economia. Tudo, claro, se as nações conseguirem obter a tecnologia necessária para acelerar a transição energética dentro de suas próprias fronteiras.

Karim explica que existem dois tipos de planos de transição energética na região. Os que envolvem importadores líquidos de energia, como na Jordânia, no Marrocos e no Egito - sendo que todos os três aumentaram a participação de energias renováveis em sua matriz energética e sua capacidade de energia renovável, principalmente instalando projetos solares e eólicos. 

E há os países que têm planos de transição como exportadores líquidos de energia, que incluem a maioria dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã). O Conselho é constituído pelos principais países produtores de petróleo e gás que tendem a ver seus próprios planos de transição energética como uma medida para diversificar sua economia. E não apenas isso, mas também liberar mais óleo e gás para exportações em uma corrida contra o tempo para gerar mais renda antes que esses recursos não sejam mais necessários.

Karim diz que está bastante familiarizado com as propostas e discussões dentro do G20 sobre a questão. No entanto, ele está preocupado porque elas não vão longe o suficiente, dada a grande responsabilidade dos países do grupo em termos de redução de emissões de carbono e aceleração da transição.

Karim Elgendy especialista em clima do Oriente Médio, acadêmico sênior não residente no Middle East Institute, em Washington, nos Estados Unidos.  Crédito: Arquivo pessoal.
Karim Elgendy especialista em clima do Oriente Médio, acadêmico sênior não residente no Middle East Institute, em Washington, nos Estados Unidos. Crédito: Arquivo pessoal.

O especialista em clima lembra que os países do grupo são muito diferentes entre si e tendem a ter uma parcela muito grande de uso de energia, na casa dos 80%, assim como de emissões globais de carbono também em torno de 80%. Então, o que quer que os países do G20 façam terá ramificações globais e pode definir se a luta contra as mudanças climáticas será bem-sucedida ou não.

“Em termos das propostas do G20, o problema é a diversidade que temos entre as economias desenvolvidas e o Sul Global que reflete as mesmas falhas no discurso internacional sobre a transição energética. Então, a linguagem que saiu (até agora) foi geral e não manteve os estados-membros dentro de um cronograma estrito que esteja alinhado com os objetivos do Acordo de Paris”.

Quanto à sociedade civil, em geral, sabe que há discussões mínimas sobre transição energética na maior parte do Oriente Médio. Mas o conhecimento dos cidadãos comuns sobre questões ambientais é limitado, sobretudo quando há um conflito violento na região, e isso tende a atrair a maior parte da atenção do público.

O mundo em mudança

O risco de um conflito prolongado no Oriente Médio certamente provoca mais preocupação e instabilidade no mercado global de energia, que passa por um novo contexto geopolítico mais complexo e fragmentado. Novos arranjos políticos e industriais surgem à medida que os países competem por posições na nova economia verde, em meio a preocupações com segurança energética. Enquanto as emissões de gases de efeito estufa permanecem em níveis recordes aumentando os riscos climáticos.

O relatório Perspectivas Energéticas Mundiais 2023 da Agência Internacional de Energia (IEA) mostra que ainda assim, apesar das adversidades, para cada 1 dólar gasto em combustíveis fósseis, 1,8 dólar agora é gasto em uma variedade de tecnologias de energia limpa e infraestrutura relacionada.

A indústria global de petróleo e gás abrange de pequenos operadores especializados a grandes empresas nacionais de petróleo. Esses produtores enfrentam escolhas cruciais sobre seu papel no sistema global de energia em meio a uma crise climática cada vez pior, alimentada em grande parte por seus principais produtos. Por isso, a indústria vem investindo em alternativas, a exemplo da eólica offshore. Atualmente, cerca de 2% da capacidade desta tecnologia em operação foi desenvolvida por empresas de petróleo e gás. E os planos estão se expandindo para incluir turbinas flutuantes que são necessárias para explorar o grande potencial dos ventos em alto mar.

Para Heloisa Borges Bastos, diretora de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a transição para fontes renováveis é uma discussão com várias camadas. Também não vai acontecer sem o setor petrolífero porque o recurso tem o seu próprio papel, ela cita o exemplo do gás liquefeito de petróleo (GLP), o famoso gás de cozinha no Brasil. O GLP é um derivado do petróleo que entrega segurança à população tanto no ambiente doméstico quanto industrial.

Conforme Karim menciona, à medida que o financiamento é um dos desafios para a transição, Heloisa concorda que a indústria pode atuar como um investidor na economia verde. Porque tanto no Brasil quanto no mundo, é preciso um esforço grande de pesquisa, desenvolvimento e inovação para conseguir todas as soluções necessárias. “A gente precisa mapear as fontes de financiamento. Por exemplo, os contratos de exploração e produção de petróleo nos campos do Brasil tem uma cláusula que determina que 1% da receita bruta dos campos que pagam participação especial, eles não têm uma elevada produtividade, deve ir para pesquisa e inovação”, explica. 

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estabeleceu uma cláusula de investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação (PD&I) nos contratos com as petrolíferas. Os valores gerados são investidos em projetos que podem ser executados pela própria empresa petrolífera, por empresas brasileiras ou por instituições credenciadas em todo o país. A cláusula existe há 26 anos e, em 2021, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) publicou uma resolução orientando a ANP a priorizar a destinação dos recursos de PD&I a temas ligados à transição energética.

Segundo a  Agência,  entre 2018 e 2022, foram contratados 433 projetos de energia solar, hidrogênio, energia eólica, captura e armazenagem de carbono, modelagem e prevenção de impactos ambientais, entre outros. Todos financiados com os recursos da cláusula, totalizando R$ 1,7 bilhão (US$ 297 milhões).  Atualmente, há 207 projetos em andamento sobre esses temas, correspondendo a um montante de R$ 1,1 bilhão (US$ 192 milhões) .


O que significa que uma parte da renda do setor de exploração e produção de petróleo e gás natural, no Brasil, está contribuindo para que a matriz energética brasileira continue sendo uma das mais limpas do mundo. Portanto, mesmo com todos os contratempos e limitações, para os especialistas, há fortes sinais de uma mudança de pensamento em direção a matrizes energéticas mais sustentáveis na maior parte do mundo.

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