Especialistas alertam para fragmentação e desafios na governança digital
Acadêmicos, empresas e organizações da sociedade civil se encontram no NetMundial +10 para discutir os obstáculos e oportunidades na gestão do ambiente digital, em um debate crucial sobre o futuro da internet e da tecnologia. Evento segue nesta terça-feira, 30, em São Paulo, com transmissão pelo Youtube @netmundial.

No NetMundial +10, acadêmicos, empresários e organizações da sociedade civil discutiram os desafios centrais da gestão e regulação do mundo digital e realizou um panorama da situação atual da internet no mundo, 10 anos depois do primeiro encontro que elaborou as bases do Marco Civil da Internet e colocou o Brasil na vanguarda do debate no mundo. A mesa aconteceu nesta segunda-feira, 29/4, em São Paulo.
A embaixadora de tecnologia da Dinamarca, Anne Marie Engtoft Meldgaard, falou da proposta do primeiro NETMundial, em 2014, de estabelecer parâmetros de governança digital que tenha a influência de todos os setores. “Eu não estava aqui há 10 anos, estou olhando para isso como algo relativamente novo e acho que é justo dizer que progredimos muito, mas ainda temos um longo caminho a percorrer”, disse a embaixadora.
De acordo com Meldgaard, a internet não está aberta, segura, interoperável e perfeitamente funcional, como defendeu a retomada de algumas propostas do primeiro evento do NetMundial. “É uma internet fragmentada, influenciada por nações e isso pode se agravar conforme avançamos para um modelo mais algorítmico, onde gatekeepers muito poderosos estão envolvidos, temos um longo caminho pela frente”, explicou Anne Marie. Para ela os desafios são oportunidades para crescimento.
Já o pesquisador da Derechos Digitales, Michel Roberto de Souza, disse que não há dúvidas da importância no NetMundial, 10 anos depois. “Naquele momento o Brasil estava liderando uma agenda global a favor da privacidade. Propôs o Marco Civil da Internet, e um mundo completamente diferente do que a gente tem hoje”. Souza considera que muito aconteceu na agenda de governança da internet e multissetorialismo, “este momento é crucial, este ano há discussões extremamente importantes como o summit for the Future, Pacto Digital Global, que podem de fato definir o que queremos para o futuro”.
O representante da universidade de Ottawa, Florian Martin-Bariteau, disse que iniciativas de Inteligência Artificial (IA) podem não estar entregando alguns dos resultados esperados e tem seus próprios desafios. O acadêmico defende que a representação é extremamente importante para o debate da internet atual, “o local é importante para a inclusão, precisamos nos reunir em locais que recebam diferentes pessoas, vozes de mulheres e precisamos estar onde tenha engajamento”.
Jennifer Chung, do DotAsia, disse que a Internet é construída a partir da história do desenvolvimento de uma rede global. “Quais são os obstáculos ao se envolver na construção desse processo multi-stakeholder, especialmente quando estamos olhando para tomadas de decisão sobre questões da internet e questões digitais mais amplas?”, questiona Chung. Para ela um desses desafios são as ações nacionais e regionais, por legislação e regulamentação que afetam a infraestrutura. “Há consequências não intencionais das legislações e regulamentações, e algumas delas têm efeitos extraterritoriais que podem fragmentar a internet livre e aberta”, argumenta.
Inteligência Artificial e governança
O representante da OpenAI na América Latina, Nicolas Robinson, acredita que as mudanças têm acontecido em uma velocidade que não há paralelo na história da humanidade. Ele destacou a importância da participação e do diálogo de longo prazo e constante, que ajuda todos os lados da discussão. “Diria que a Inteligência Artificial é uma metáfora para explicar uma abordagem multissetorial, porque ela requer uma quantidade tão grande de recursos, que exige uma abordagem de governança multifacetada e tecnologica”.
“Recentemente, algumas plataformas de mídia social se tornaram outro campo para disputas geopolíticas. Podemos presumir que os problemas só podem ocorrer onde há transparência e os países seguem as tendências internacionais, caso contrário, podemos testemunhar a fragmentação da internet”, argumentou. Para ele não se deve ter medo de usar a IA como uma plataforma multissetorial. O uso da IA pode garantir uma participação ativa e processos de construção de consenso na governança.
O evento atrai a atenção de especialistas e interessados na discussão sobre o futuro do mundo digital e das políticas de um momento importante para definir os rumos da tecnologia e da sociedade da informação.