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CULTURA
Fundaj realiza gravações que integrarão a exposição “Iranti: ancestralidade viva e contínua”
A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) realizou, no dia 9 de abril, duas ações culturais no pátio do Campus Ulysses Pernambucano, no Derby, que resultaram na produção de material audiovisual para a exposição “Iranti: ancestralidade viva e contínua”. As atividades incluíram uma roda de toré e uma performance do Grupo Totem, organizadas pela professora Inaê Veríssimo.
As ações integram o curso de Especialização em Arte e Educação em uma Perspectiva Descolonizadora e foram registradas pelos estudantes como parte do processo de construção da exposição, que será apresentada entre os dias 24 de abril e 29 de maio de 2026, na Sala de Leitura e na Sala de Videoarte Cristina Tavares da Fundaj, ambas no Derby.
Coordenadora do curso, Tatiana Ferraz destaca que a iniciativa está inserida em uma proposta mais ampla de transformação dos processos educativos. “O curso é um desafio porque está sendo pensado para transformar a educação, buscando pontos de convergência entre diferentes perspectivas para construir uma educação inovadora, com representatividade indígena, brasileira, pernambucana e latino-americana”, afirma.
Segundo ela, a produção dos trabalhos reflete um esforço coletivo de revisão de conteúdos e metodologias. “Somos educadores que estão trabalhando na criação de novos conteúdos e produtos com o intuito de descolonizar a sala de aula, trazendo informações sobre povos africanos e indígenas e construindo uma educação mais inclusiva, a partir de diferentes epistemologias”, acrescenta.
As gravações realizadas durante as apresentações serão incorporadas à exposição, que reúne diferentes linguagens artísticas e tecnológicas. “A exposição reúne trabalhos em audiovisual, videoarte performática, instalação, zine, música e tecnologias imersivas, como o uso de câmeras 360º e recursos 3D, articulando questões culturais e socioambientais em uma proposta interativa e inovadora, especialmente por se constituir também como uma experiência sonora”, explica Tatiana.
A roda de toré, uma das atividades realizadas, foi conduzida em um contexto específico de registro audiovisual. A artista indígena Izabelle Mota ressalta que a ação respeitou os limites simbólicos e culturais dessa prática. “O intuito não foi abrir um toré ritual, mas ressoar alguns cantos dentro do contexto em que a gente estava, respeitando esse espaço como um lugar de conhecimento e não como um terreiro propriamente dito”, afirma.
Ela também destaca o cuidado necessário na condução dos cantos. “Eu não sou uma liderança espiritual e nem tenho esse preparo, então não puxo determinados pontos, especialmente aqueles ligados a entidades encantadas, porque isso exige uma vivência e uma responsabilidade que vêm da prática dentro da Jurema”, completa.
Para Inaê Veríssimo, que leciona a disciplina “Toré dos indígenas do Nordeste”, responsável pela organização das apresentações, o toré possui múltiplos significados que ultrapassam a dimensão ritual. “O toré é um fenômeno que não é somente ritualístico, não é somente festa, ele também é luta, resistência e afirmação de identidade dos povos indígenas do Nordeste, sendo utilizado inclusive como ferramenta política para que esses povos se afirmem enquanto originários”, explica.
A professora também destaca a abordagem metodológica adotada no curso. “Na disciplina, a gente investiga o toré, a poética do grupo Totem e a arte-educação, utilizando a cartografia como metodologia para que os estudantes possam transformar essa experiência em linguagem performática e em ferramenta de investigação”, afirma.
A performance do Grupo Totem, intitulada “Coragem Encarnada”, dialoga com experiências vivenciadas junto a povos indígenas. Integrante do grupo, Taína Veríssimo ressalta o impacto desse processo. “A gente fez um trabalho muito intenso junto com os povos indígenas, participando de rituais, realizando residências e criando junto com eles, e isso nos atravessou profundamente, porque quando você se aproxima do território, você entende por que aquela cultura é sagrada e passa a se reconhecer também como parte dessa luta”, diz.
Docente da disciplina “A Arte Indígena em Galerias Ancestrais” e uma das responsáveis pela exposição, Bartira Barbosa enfatiza a dimensão sensorial e histórica das práticas trabalhadas. “O toré envolve corpo, música e arte como formas de escuta dessas memórias que permanecem vivas, trazendo, nos movimentos e nos ritmos, a presença contínua das culturas indígenas”, afirma.
Segundo ela, o material produzido possui relevância para diferentes campos de conhecimento. “Essas imagens têm um valor enorme para a pesquisa histórica e artística, porque envolvem técnica, estilo e modos de produção que atravessam milhares de anos”, destaca. “Estamos diante de uma exposição com alunos que tiveram contato com as primeiras manifestações de arte do Brasil, articulando esse conhecimento com a arte e educação trabalhada hoje nas escolas”, completou.
Com apoio do MultiHlab, Laboratório Multiusuários em Humanidades da Fundaj, os estudantes encontram-se atualmente na fase de execução dos projetos que comporão a exposição. A mostra “Iranti: ancestralidade viva e contínua” reunirá os resultados dessas investigações, articulando prática artística, pesquisa e formação em uma proposta voltada à reflexão sobre ancestralidade, cultura e educação.