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MEMÓRIA
Em preparação para nova exposição, Museu do Homem do Nordeste ensaia expografia em galeria
Renovar um museu exige um cuidado especial. Mas, para além da preocupação com o estado de conservação das peças e do espaço físico em que elas vão ser exibidas, a expografia figura em posição de destaque. É nesse sentido que o Museu do Homem do Nordeste (Muhne) busca, em sua nova exposição de longa duração, organizar seu vasto e rico acervo de modo a contar a história de formação cultural e social da região de maneira correta em todos os pontos de vista.
Em meio a esse processo, o espaço expositivo da Galeria Waldemar Valente, localizada no edifício-sede do Muhne, em Casa Forte, vem servindo como um laboratório. Com grandes janelas que a fazem lembrar um aquário, a sala funciona, desde o fechamento do Museu para reforma, como palco de um ensaio expográfico. “A Galeria Waldemar Valente está sendo utilizada como um espaço de experimento, de teste, e de preparação de parte das obras que serão exibidas na nova exposição de longa duração do Museu do Homem do Nordeste”, conta o coordenador-geral do Muhne, Moacir dos Anjos.
Consultores especializados em alguns dos núcleos expositivos foram convidados pelo Muhne para organizar o acervo e montar novas formas de exibição dos artefatos. Entre eles, está Manoel Papai, babalorixá do Ilê Ọba Ògúnté, terreiro de candomblé nagô que ficou mais conhecido como Sítio de Pai Adão. O líder religioso tem uma relação de parceria histórica com o Muhne, iniciada na exposição inaugural do Museu, no final da década de 1979. Hoje revisita o acervo que ele próprio ajudou a construir naquele momento, ajustando e complementando pontos necessários.
Ainda no acervo do candomblé, os pesquisadores e antropólogos Olavo Souza e Noshua Amoras assessoram a instituição com o acervo de candomblé, em particular com a catalogação e identificação de peças da Coleção Waldemar Valente, que foi doada por ele à Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) nas décadas de 1960 e 1970 e, mais recentemente (no caso de fotografias), por sua família. Meio século depois, algumas dessas peças ocupam a galeria que carrega o nome do antropólogo estudioso da religiosidade afro-brasileira.
Junto a esses itens, uma mesa da jurema sagrada, tradição afro-indígena do Nordeste, foi montada com a consultoria do educador museal e juremeiro Henrique Falcão. Com a abertura da nova exposição, prevista para o segundo semestre deste ano, a religião de matriz indígena terá um espaço maior dedicado a ela, reforçando o reconhecimento das influências afro-indígenas na formação identitária do povo nordestino.
Além da consultoria nas tradições religiosas da região, outros nomes importantes para a cultura e os estudos do povo nordestino compõem a equipe de consultoria da nova exposição. O museólogo Gilvanildo Ferreira ficou responsável por assessorar o Museu no acervo indígena, identificando peças que melhor representam os rituais do Toré — que vai ganhar mais visibilidade na exposição —, bem como as que evocam questões como a retomada da terra, a afirmação de identidade e a disputa por territórios.
Mestra Cida Lopes, filha do mestre Zé Lopes, de Glória do Goitá, na Zona da Mata pernambucana, presta consultoria sobre o acervo de mamulengos do Muhne, identificando os autores das peças e quais personagens os bonecos representam. Já os mestres Hilson Olegário, do Boi da Mata, e Biu do Ganzá, neto do criador do Boi Misterioso de Afogados, o Capitão Pereira, revisitam o acervo desse Boi, salvaguardado pela Fundaj e que vai ser parte fundamental da nova exposição.
Em função da delicadeza dos itens e do caráter experimental e rotativo da pequena mostra, a Galeria Waldemar Valente não está aberta ao público diretamente. Em contrapartida, seus janelões permitem uma espiada no que o Museu do Homem do Nordeste prepara para sua próxima exposição de longa duração. Os ensaios expográficos podem ser visualizados de terça-feira a domingo, no horário de funcionamento do Cinema da Fundação, visto que a galeria fica localizada em frente à sala Museu.