Le Coze reforça importância dos fatores humanos e organizacionais nas visões e práticas de Segurança
Pesquisador aborda ideias-chave do livro publicado em português e pondera impactos da globalização, da burocratização e das relações de poder

Em entrevista publicada no volume 50 da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO), Jean-Christophe Le Coze fala do livro “Trinta anos de acidentes: a nova face dos riscos sociotecnológicos”, do qual é autor. Na obra, traduzida para o português em 2023, o pesquisador do Instituto Nacional de Ambiente Industrial e Riscos (Institut National de l'Environnement Industriel et des Risques - Ineris) propõe uma abordagem multidimensional e interdisciplinar para compreender e prevenir acidentes, integrando ergonomia, sociologia, ciência política e engenharia.
Aos entrevistadores, Le Coze reforça que a segurança deve ser vista como um sistema dinâmico e complexo. À noção de complexidade enquanto eixo central dos acidentes, o autor acrescenta outra camada de compreensão a partir da perspectiva filosófica de Edgar Morin.
Alguns destaques trazidos na entrevista envolvem a importância da etnografia como método de investigação que inclui trabalhadores, engenheiros e gestores e o papel das visualizações gráficas, como o Accident Map (Accimap). Le Coze menciona que o livro também traz críticas construtivas a modelos de análise de riscos e acidentes em sistemas complexos, como o do queijo suíço e o de migração. Como alternativa, desenvolve o modelo de construção de segurança sistêmica e dinâmica.
O autor também chama atenção para os impactos da globalização e da burocratização nos sistemas de segurança. Embora padrões e normas sejam fundamentais em setores de alto risco, como aviação e nuclear, sua aplicação indiscriminada pode gerar contradições e ineficiências. Nesse sentido, defende incorporar a sociologia e a ciência política para entender como decisões organizacionais e forças globais moldam a segurança.
“O problema surge quando esses padrões, em outros contextos, deixam de ser valiosos porque tratam de riscos que não valem esse nível de padronização, mas como há um certo frenesi em tentar controlar tudo, o nível de burocratização se torna insano, sem nenhum sentido”, observa.
Por fim, Le Coze ressalta que a segurança é inseparável das relações de poder nas empresas e na sociedade. Não há avanços regulatórios significativos sem pressão social e política, a exemplo do que ocorreu na França, onde protestos públicos após acidentes levaram à maior transparência e à criação de conselhos independentes de investigação.
A entrevista foi conduzida pelos professores da Universidade de São Paulo (USP) Sandra Lorena Beltran Hurtado e Rodolfo Andrade de Gouveia Vilela, pelo editor-chefe da RBSO Raoni Rocha Simões e pelo editor associado da revista Ildeberto Muniz de Almeida.
Leia a entrevista Jean-Christophe Le Coze e o estudo dos riscos sociotecnológicos na página da RBSO no SciELO. O conteúdo está disponível em português e inglês e o download do PDF é gratuito.
Saiba mais
Acesse os demais artigos do volume 50.
Acompanhe as publicações da RBSO nos sites da Fundacentro e do SciELO. Também é possível ter acesso pelo X ou pelo aplicativo da revista, disponível para os sistemas IOS e Android.
Leia também
Obra com análise de 30 anos de acidentes traz novas perspectivas para a segurança industrial
RBSO participa de Semana Especial do blog SciELO em Perspectiva
.
Texto:
Karina Penariol Sanches
Imagem:
Capa do livro
.