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Gestão algorítmica e insegurança do trabalho em plataformas digitais provocam agravos à saúde física e mental
Marca da RBSO no topo à esquerda, Dossiê Saúde Mental e Subjetividade. No centro, entregador com bag em bicicleta, submerso em imagem de redes digitais, sobreposto o título do artigo - Plataformas digitais: o retrato contemporâneo da exploração no trabalho e os desafios à saúde do trabalhador. No canto inferior direito, a marca da Fundacentro. Imagem criada para o card por IA - Freepik.
Por trás de discursos de autonomia, empreendedorismo e inovação, as plataformas digitais ampliam modos sutis de operacionalização do controle e a intensificação do trabalho, além de negar direitos trabalhistas e previdenciários. Esse cenário, que traz impactos à saúde dos trabalhadores que nelas atuam, é explorado pelo artigo Plataformas digitais: o retrato contemporâneo da exploração no trabalho e os desafios à saúde do trabalhador, publicado no Dossiê Saúde Mental e Subjetividade, da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional.
"A gestão algorítmica e a insegurança laboral provocam agravos à saúde física e mental, fazendo-se necessárias mais pesquisas que quantifiquem e descrevam com maior precisão as dificuldades e as estratégias de enfrentamento dos trabalhadores, para que se possa contribuir na elaboração de políticas que regulem o setor", apontam as autoras Julice Salvagni, Marilia Veronese e Roseli Figaro.
Para chegar a essa conclusão, as pesquisadoras realizaram uma revisão integrativa da literatura de saúde ocupacional publicada em revistas brasileiras entre 2017 e 2022, a partir de buscas no Portal de Periódicos da Capes e no SciELO. Com o objetivo de identificar estudos sobre trabalho no contexto da economia de plataforma e as consequências da gestão algorítmica, financeirização e “dataficação” para a saúde dos trabalhadores, elas selelecionaram 10 artigos, que atendiam aos critérios estabelecidos, de 324 identificados no levantamento.
"Os estudos selecionados mostraram que no trabalho plataformizado dissimulam-se relações de produção assimétricas, podendo acentuar o controle e a exploração. Identificaram uma lógica de gerenciamento que busca simular relações entre 'parceiros' e se eximir dos direitos associados ao trabalho decente. Com isso, os trabalhadores perceberam ampliar-se o sentimento de subsunção, a insegurança e a perda de sentido do próprio trabalho, elementos deletérios à sua saúde psicossocial", explicam.
Na avaliação das autoras, as pesquisas apontam as implicações à saúde da modalidade de trabalho por plataforma, mas ainda carecem de evidências empíricas mais densas para formar bases de dados mais extensas, que permitam sistematizar de forma mais precisa as implicações laborais à saúde no trabalho de plataforma.
O artigo traz reflexões sobre a platamorfização do trabalho, presidida por grandes empresas transnacionais, como uma nova colonialidade. Outro aspecto é a autodenominação como empresa de tecnologia para acobertar a forma como seus negócios se realizam. A lógica operacional delas depende do trabalho intermitente, fragmentado e disponível 24 horas por dia, de grande massa de desempregados ou trabalhadores informais. Dessa forma, podem dissimular carga horária e vínculo empregatício.
"A lógica da liberdade de escolha e da autonomia reserva aos trabalhadores todo o ônus pelas condições de saúde e segurança no trabalho", alertam. "Há uma desorganização controlada dos procedimentos e vínculos de trabalho. Esse modelo desestabiliza a atividade real de trabalho e instala a incerteza constante. As prescrições e as normas comuns à atividade são constantemente desestabilizadas, fator que causa incerteza e sofrimento ante as tarefas diárias", completam.
Assim trabalhadores e trabalhadoras desse setor são colocados em situação de insegurança em relação ao seu saber-fazer. As renormalizações, necessárias à atividade humana de trabalho, são demandadas a um ritmo e fluxo estressantes. O trabalho também é fragmentado e disperso pelo globo, ao mesmo tempo em que as empresas mantêm um rígido controle sobre ele. Com frequentes quebras de regras e normas, os trabalhadores não têm mínimo controle dos procedimentos de sua atividade. O impedimento à compreensão das condições em que se dá a atividade leva a situações para o desenvolvimento de doenças. Da mesma forma, a gestão algorítmica do trabalho introduz um meio ambiente doentio, porque retira do trabalhador o potencial de gestão de si no trabalho.
Saiba mais
Leia o artigo Plataformas digitais: o retrato contemporâneo da exploração no trabalho e os desafios à saúde do trabalhador, das pesquisadoras Julice Salvagni, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Marilia Veronese, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, e Roseli Figaro, da Universidade de São Paulo.
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Texto:
Cristiane Oliveira Reimberg