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Trabalho remoto dos docentes na pandemia acentua problemas musculoesqueléticos e desigualdade de gênero
Para todos verem: Imagem escura, com uma luz de abajur ao fundo. Em primeiro plano, professora dando aula remota. Na tela do notebook a sua frente, imagem de seis alunos. Na mesa, uma xícara e diversos papéis espalhados. No canto superior esquerdo, logomarca da RBSO. Lado oposto, tarja azul clara com texto "Artigo de Pesquisa” em letras brancas. No rodapé da imagem, título do artigo em letras brancas, "atores associados às dores musculoesqueléticas entre docentes durante o trabalho remoto na pandemia da Covid-19". No canto inferior direito, logomarca da Fundacentro e selo comemorativo dos 60 anos da instituição.
A imposição do trabalho remoto a muitas categorias durante a pandemia da Covid-19 mostrou fragilidades do modelo e consequências à saúde dos trabalhadores, entre eles os docentes. Uma pesquisa publicada no volume 50 da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO) mostrou o aumento das queixas de dores musculoesqueléticas entre professores naquele período. A condição foi agravada por acúmulo de tarefas, ambiente doméstico inadequado e insatisfação com o modo de gerir e lidar com o trabalho, com as relações pessoais e consigo mesmo.
Dos 1.144 professores da rede privada da Bahia que participaram do estudo, 76% eram mulheres. Entre junho e julho de 2020, os docentes responderam 80 questões do formulário on-line divididas em cinco blocos. As perguntas contemplaram características sociodemográficas e aspectos psicossociais, da organização do trabalho docente em geral e na pandemia, da situação de saúde e dos hábitos de vida e sono. Abordaram também aspectos relativos à família e à adoção das medidas de distanciamento social.
As dores mais relatadas foram em membros superiores (braços, antebraços, ombros e mãos) e coluna, 70,6% e 69,9% respectivamente. Entre as mulheres, em torno de 70% delas indicaram sentir mais dores quando comparadas aos homens, entre os quais menos de 60% declararam incômodos.
De modo geral, os docentes indicaram que a maior exposição a riscos ocupacionais ergonômicos ocorreu por conta do aumento repentino de demandas e exigências dos empregadores sem tempo hábil para se adequarem. Sem treinamento e por vezes sem escolha, precisaram adequar a si próprios e as estratégias metodológicas e pedagógicas ao uso de novas ferramentas digitais. Aqueles que puderam escolher a ferramenta em conjunto com a instituição apresentaram menos dores musculoesqueléticas do que aqueles que decidiram por conta própria ou tiveram a decisão tomada pelo empregador.
A nova realidade veio acompanhada de cobranças para minimizar prejuízos no calendário escolar e no desempenho dos alunos. Mais de um terço dos professores relataram que o aumento da carga horária de trabalho veio com demandas dos empregadores que invadiam o tempo que seria dedicado à vida pessoal. Essas queixas alcançaram de 74% a quase 83% na correlação com as dores musculoesqueléticas.
Os docentes vivenciaram também dificuldades para adequar o espaço de casa para o trabalho. Problemas como inabilidade em gerir o tempo, longas horas sentados, movimentos repetitivos, falta de pausas, improviso do espaço doméstico e mobiliários inadequados se sobrepuseram e originaram ou pioraram problemas musculoesqueléticos.
Quase todas essas condições foram associadas às dores avaliadas pelo estudo, em alguns casos chegando ou ultrapassando 80% das queixas. Dificuldade de organizar agenda e planejamento de atividades devido à sobrecarga de trabalho e ao grande volume de atividades também registram altos índices: 76,8% e 73,8% respectivamente. O contexto gerou ainda insatisfação com a capacidade para o trabalho, com as relações pessoais e consigo mesmo e se mostraram estatisticamente associadas às dores musculoesqueléticas.
As autoras destacam que a questão de gênero pode ser um fator de maior exposição às dores no cenário analisado. A sobrecarga doméstica foi uma das queixas das professoras que mais tiveram associação com as dores, seguida de aumento do tempo de trabalho e despreparo para as novas demandas geradas pelo modelo de trabalho. No caso dos professores, figuraram dificuldades com alunos, carga horária semanal maior que 20 horas, dificuldades para organizar a agenda e ruídos que prejudicavam a concentração e a comunicação.
Apesar dos resultados significativos, os autores destacam algumas limitações do estudo, como a amostragem por conveniência. “É possível que os docentes que responderam ao questionário apresentem alguma queixa e, por isso, se sentiram mais dispostos a participar da pesquisa”, observam Jéssica Silva da Silva, Camila Carvalho de Sousa, Paloma de Sousa Pinho, Tânia Maria de Araújo, autoras do artigo.
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Leia o artigo na íntegra: Fatores associados às dores musculoesqueléticas entre docentes durante o trabalho remoto na pandemia da Covid-19
Acesse os demais artigos do volume 50.
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Texto:
Karina Penariol Sanches
Imagem:
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