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CLIMA
Calor extremo pode reduzir produtividade e gerar perdas bilionárias no Brasil
Card informativo com fundo em tons claros e detalhes em vermelho. À esquerda, mapas do Brasil em cores quentes (amarelo, laranja, rosa e vermelho) ilustram projeções de calor extremo em diferentes períodos futuros. À direita, o texto em destaque diz: “Pesquisa – Calor extremo ameaça saúde do trabalhador e produtividade”. No canto inferior direito, aparece o logotipo da Fundacentro.
Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports alerta para os efeitos do avanço das mudanças climáticas sobre o mundo do trabalho no Brasil. O artigo “Projected productivity losses and economic costs due to heat stress under climate change scenarios in Brazil” analisa como o aumento do calor pode comprometer a saúde dos trabalhadores, a produtividade e gerar custos econômicos significativos nas próximas décadas.
A pesquisa contou com a participação do tecnologista da Fundacentro Daniel Bitencourt, coordenador do Programa de Mudança Climática e Segurança e Saúde no Trabalho, cuja contribuição foi fundamental para integrar a perspectiva da saúde e segurança ocupacional às análises climáticas e econômicas do estudo. O trabalho integra um pós-doutorado desenvolvido na Universidade Federal da Bahia (UFBA) pelo pesquisador Leydson Galvíncio Dantas, no Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA), e envolveu pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da própria UFBA.
De acordo com os resultados, em um cenário intermediário de mudanças climáticas, as perdas econômicas associadas ao estresse térmico no trabalho podem chegar a 228 milhões de dólares por dia. Um quadro mais crítico, marcado pelo uso intensivo de combustíveis fósseis, esses prejuízos podem atingir 353 milhões de dólares diários, evidenciando o peso das decisões políticas e dos modelos de desenvolvimento adotados sobre o futuro econômico do país.
Para estimar esses impactos, os pesquisadores utilizaram o Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo (IBUTG), conhecido internacionalmente como WBGT, indicador amplamente adotado em normas de saúde ocupacional. O índice combina fatores como temperatura do ar, umidade, radiação solar e vento, permitindo avaliar de forma mais precisa o estresse térmico a que trabalhadores estão expostos, especialmente em atividades realizadas ao ar livre.
A pesquisa indica que o aumento das temperaturas expõe milhões de trabalhadores a condições insalubres, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde há maior concentração de atividades ao ar livre e de esforço físico, como agricultura, construção civil, serviços e trabalho informal. Nessas áreas, trabalhadores com menor proteção social são mais vulneráveis ao estresse térmico, condição que provoca fadiga, desidratação, queda de rendimento e aumento dos riscos à saúde.
Perda de produtividade e impactos sociais
O estudo avaliou o estresse térmico ocupacional a partir da combinação de fatores ambientais, como temperatura do ar, umidade, radiação solar e vento, que afetam diretamente a capacidade física e cognitiva dos trabalhadores. As projeções indicam perdas crescentes de produtividade, sobretudo em atividades realizadas a céu aberto ou de alta intensidade física.
Sem medidas de adaptação, os pesquisadores estimam que as perdas econômicas decorrentes da redução da produtividade podem representar cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro até 2100. Além dos impactos econômicos, o estudo aponta consequências sociais importantes, como redução da renda, aumento da vulnerabilidade dos trabalhadores e agravamento de problemas de saúde relacionados ao calor extremo.
Ao projetar cenários futuros e quantificar perdas de produtividade e custos econômicos, o artigo oferece subsídios relevantes para o planejamento de políticas públicas, destacando a necessidade de ações globais de mitigação das mudanças climáticas e de políticas nacionais de proteção aos trabalhadores, como pausas regulares, acesso à hidratação, adaptação da jornada de trabalho e melhoria das condições térmicas nos ambientes laborais.
Além de Daniel Bitencourt, participaram da pesquisa a doutora Beatriz Fátima Alves de Oliveira, da Fiocruz, e Cleber Cremonese, do ISC/UFBA. O trabalho reforça a importância da cooperação entre universidades e instituições públicas para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Artigo
O artigo pode ser acessado na íntegra no site da Scientific Reports, periódico do grupo Nature.
Texto:
Débora Maria Santos
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