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REVISTA BRASILEIRA DE SAÚDE OCUPACIONAL

RBSO finaliza Dossiê Intervenção em Saúde do Trabalhador

Publicações refletem sobre processos para efetivação de mudanças nas situações de trabalho
Publicado em 21/01/2021 17h23 Atualizado em 21/01/2021 17h25
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A Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO) encerrou em 2020 o Dossiê “Intervenção em Saúde do Trabalhador”. Uma caminhada iniciada em 2018, que permitiu refletir sobre o papel da intervenção em saúde do trabalhador, seus objetos e modalidades no contexto atual do mundo do trabalho. De lá para cá, foram 41 textos publicados, que apresentam experiências, pesquisas e reflexões no periódico científico da Fundacentro, por pesquisadores de diversas instituições.

“A intervenção é concebida como processo para efetivação de mudanças nas situações de trabalho a fim de eliminar ou reduzir os agravos a elas relacionados e, ao mesmo tempo, aumentar o poder de agir individual e coletivo dos trabalhadores. Enfim, refletir sobre a intervenção remete também a indagar sobre o poder de agir da atuação profissional e da pesquisa no campo, assim como sobre o que se espera das instituições nas novas configurações do trabalho no Brasil”, afirma-se no ensaio introdutório, que deu início a esta jornada.

Os textos aqui mencionados são alguns dos publicados no dossiê em 2020 e trazem intervenções em unidades de saúde e em corporação policial, ações de vigilância em saúde do trabalhador e da violência no trabalho, possibilidades de negociação coletiva e de uso de apoio matricial.

Experiências de intervenção

O artigo “O olhar da equipe de enfermagem sobre o trabalho em uma unidade neonatal: uma intervenção com foco na atividade” apresenta os resultados de uma pesquisa-intervenção que utilizou princípios da Ergologia e da Psicodinâmica do Trabalho para compreender e analisar a atividade de trabalho. Foram levantadas questões ambientais, relacionais e organizacionais como a superlotação, dificuldades no trabalho em equipe, ausência de reconhecimento profissional e ambiente de trabalho inadequado. Por outro lado, os trabalhadores de enfermagem estabeleciam estratégias para lidar com as adversidades e cuidar dos pacientes, em grande parte crianças com doenças crônicas.

“A história e o saber de cada trabalhador são essenciais para o desenvolvimento da atividade. Essa visão do trabalho tanto favorece o reconhecimento do investimento que o trabalhador faz de si, como fortalece sua identidade pessoal, profissional e social, possibilitando, assim, a construção do sentido do trabalho”, concluem as autoras.

Outra experiência voltada para um situação real aparece no artigo “Intervenção integrada em saúde mental do trabalhador em uma corporação policial de Campo Grande (MS) ”. Com um estudo descritivo-analítico sobre o atendimento psicológico a policiais rodoviários federais, demonstra-se como  o trabalho desenvolvido pode ter contribuído para reduzir o número de afastamentos por transtorno mental e de dias de afastamento do trabalho.

“As medidas aplicadas impactaram significativamente em indicadores institucionais associados à saúde dos servidores”, destacam os pesquisadores. Na avaliação deles, também é necessário apoio de políticas institucionais e públicas mais amplas relacionadas à saúde do trabalhador, para integrar prática, política e pesquisa.

De caráter mais teórico, o artigo “Desafios e oportunidades para a formação em Saúde do Trabalhador na Atenção Básica à Saúde: subsídios para estratégias de intervenção ” busca traçar possibilidades de formação de trabalhadores da saúde visando à incorporação das ações de saúde do trabalhador na Atenção Básica.

“A análise dos resultados mostrou que o aprimoramento da Atenção Básica e da atenção integral a Saúde do Trabalhador passa tanto pela necessidade de se fortalecer e articular as capacidades formativas em Saúde do Trabalhador, no âmbito da Renast e da Atenção Básica, quanto pelo desafio de articular e integrar as ações dessa rede nacional com as estruturas, os programas e os serviços de saúde do SUS – em especial da Atenção Básica”, afirmam os autores.

Ações de vigilância

As ações de vigilância também estiveram em pauta no dossiê da RBSO. O artigo “Avaliação da implantação do Protocolo de Vigilância e Atenção à Saúde de ex-trabalhadores e da população expostos a chumbo, cádmio, cobre e zinco em Santo Amaro, Bahia, Brasil ” buscou mostrar as dificuldades e as intervenções realizadas na assistência e vigilância em saúde da população local e do trabalhador.

De 1960 a 1993, a região produzia lingotes de chumbo. “Nesse período, foram produzidas cerca de 490 mil toneladas de escória contendo em seu peso até 4% de óxido de chumbo (PbO), traços de cádmio (Cd) e outros metais. Esses elementos, a depender da concentração ambiental, duração da exposição e dose absorvida, podem ocasionar efeitos danosos à saúde da população”, relatam os autores.

“Apesar de a planta industrial ter interrompido suas emissões há mais de 20 anos, os elementos potencialmente tóxicos – chumbo (Pb), cádmio (Cd), zinco (Zn), cobre (Cu), arsênio (As) e prata (Ag) – ainda estão concentrados na camada de 10 cm superior do solo, o que justifica a importância do monitoramento contínuo da saúde da população residente em Santo Amaro”, completam.

Já o artigo “Uso de redes sociais virtuais na vigilância da violência no trabalho sofrida por agentes comunitários de saúde ” busca identificar casos desse tipo expressos em uma rede social  e analisar o uso dessa mídia como fonte estratégica para a vigilância em saúde do trabalhador. Além do levantamento das violências sofridas, constatou-se que “a fanpage da categoria pode ser também utilizada como um mecanismo de intervenções, na perspectiva de promoção e proteção ao trabalhador da saúde, onde a informação pode ser vista como produto de uso social, que serve aos usuários, com possibilidades de interpretação e transformação da realidade e de conscientização do cidadão”.

Caminhos possíveis

A produção de conhecimento e a reflexão podem ajudar a trilhar as ações necessárias para a intervenção em saúde do trabalhador. A RBSO traz textos que refletem sobre os caminhos possíveis. Um deles é o artigo  “Oficinas em saúde do trabalhador: ação educativa e produção dialógica de conhecimento sobre trabalho docente em universidade pública ”, que analisa reuniões em que trabalhadores e pesquisadores discutiram a questão da saúde e de condições do trabalho docente.

Os relatos mostraram a ocorrência de horas excedentes de trabalho após a jornada formal e a frustração de docentes por não conseguirem dar conta de todas as tarefas, gerando privação do sono e estresse, especialmente nos momentos de pressão em que precisam atender aos prazos estabelecidos.

Outro artigo contribui para essa reflexão: “Apoio matricial na saúde do trabalhador no Paraná: potencialidades e desafios ”. Trata-se de um estudo descritivo-exploratório, com abordagem qualitativa, que analisa ações desenvolvidas pelos Cerests (Centros de Referência em Saúde do Trabalhador) desse estado.

O apoio matricial (AM) possibilita a criação de vínculo e facilita a comunicação e troca de experiências, além de uniformizar as ações de saúde do trabalhador (ST). “Verificou-se que o AM apresenta potencialidades evidenciadas pelo incremento da relação dialógica entre matriciadores e matriciados, proporcionando maior vínculo e apropriação das características dos territórios no estado”, afirmam os autores. Por outro lado, foram identificadas dificuldades na quantidade e formação das equipes.

A questão do diálogo também aparece no ensaio “A negociação coletiva e as possibilidades de intervenção nas situações de risco à saúde no trabalho ”, que problematiza a premissa de relação entre iguais. Para tanto, analisa acordos e convenções coletivas negociados entre os anos de 2010 e 2014, registrados no Sistema de Acompanhamento de Contratações Coletivas do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Sacc-Dieese).

“Evidentemente, cláusulas sobre direitos básicos e focados nas condições ambientais de trabalho são importantes, assim como o cumprimento da lei no tocante à reparação dos danos causados pelo trabalho, mas a questão é que elas não modificam as condições técnicas e organizacionais que causam acidentes e doenças”, afirmam as autoras. A intervenção nas situações de risco e sofrimento deve considerar também as condições de trabalho (físicas, químicas, biológicas), a organização, a gestão e as relações que se desenvolvem no ambiente.

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