Depoimentos

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Vidas transformadas, dos migrantes e refugiados venezuelanos aos brasileiros que ajudaram

Mais de 500 mil migrantes e refugiados venezuelanos foram atendidos nas fronteiras brasileiras desde 2017 e milhares deles deixaram para trás, com o apoio da Operação Acolhida, histórias de fome, pobreza e abandono. São famílias inteiras, na maioria dos casos, que enfrentam diversas etapas da chegada ao Brasil até a finalização do processo de interiorização, a estratégia do Governo Federal para realocar em mais de 670 cidades brasileiras os estrangeiros em situação de vulnerabilidade que chegam no Norte do Brasil. O Sistema das Nações Unidas, entidades da sociedade civil e os municípios apoiam as autoridades no encaminhamento de migrantes e refugiados venezuelanos para outras partes do País. Acompanhe relatos das pessoas que estão encontrando no Brasil um lar, emprego e dignidade. A travessia é longa, mas com a Operação Acolhida ninguém fica para trás.

"Eu estou muito contente no Brasil e com a sua gente" 

Aos 24 anos e mãe do pequeno Matias, de sete meses, a migrante e refugiada venezuelana Anyely Del Valle Rivas foi interiorizada para Brasília, ao lado do marido, Alejandro Nunes. A jovem ficou emocionada ao reencontrar o pai, Gustavo Rivas, morador de um município goiano no entorno de Brasília. “Estou muito feliz. Queremos um melhor futuro, conseguir um trabalho”, disse. Anyely saiu de um abrigo de Boa Vista (RR) ao lado de outros 130 migrantes e refugiados venezuelanos, assistidos pela Operação Acolhida do Governo Federal. 

"Vim com duas malas: uma de roupa, outra de sonhos"

Mãe de cinco filhos e professora de Biologia, a migrante e refugiada venezuelana Yelitza Josefina Paredes tem estampados no sorriso e no otimismo, a vontade de buscar um futuro melhor para a família. Com o filho de 19 anos, chegou à fronteira do Brasil sem dinheiro e passou quatro meses morando na rua e trabalhando como doméstica, ganhando de 25 a 30 reais por diária, até ser encontrada pela Operação Acolhida. Tudo que recebia era enviado para a família em Maturín, onde ainda moram o marido e os outros filhos, de 9, 11 e 13 anos. O mais velho, de 21, fugiu da Venezuela e foi para o Panamá. Interiorizada para o Rio de Janeiro, a professora aguarda uma oportunidade para lecionar no Brasil. “Queremos fazer do Brasil a nossa pátria”, completa Yelitza.

"Na Venezuela o hospital não nos atendeu. Aqui no Brasil, sim"

A jovem indígena venezuelana Magdalena Pemon-Taurepã é mãe de Neymar. Apesar do nome famoso, a vida do bebê que nasceu em terras brasileiras é muito diferente daquela que leva o jogador brasileiro de mesmo nome. A jovem, os filhos e seus parentes fugiram de suas casas carregando apenas pequenas sacolas de roupas, lençóis e outros itens essenciais. Viajaram por horas em terrenos acidentados e cobertos de mata em busca de um refúgio. "Grupos armados atacaram nossas comunidades e nos deixaram com medo de morrer”, afirma a migrante e refugiaa venezuelana. Aqui no Brasil, encontrou o refúgio que precisava para o caçula nascer e as filhas crescerem em paz. Hoje ela está em um abrigo indígena no Brasil.

“A situação que você vê na televisão e nas mídias sociais, na realidade, é muito pior.”

No Brasil desde 2018, quando fugiu com a filha Miranda de Maracay, Marifer Vargas e o marido, Carlos Escalona, abriram uma empresa de refeições venezuelanas em São Paulo. Carlos sofria perseguição política em seu trabalho como comunicador na Venezuela e, além disso, dois motivos foram decisivos para Marifer na decisão de se refugiar no Brasil: o sentimento de insegurança e a falta de liberdade. “As pessoas, infelizmente, estão morrendo de fome, estão morrendo porque não conseguem remédio. Lá pode mudar o governo, mas não a mentalidade das pessoas. São 20 anos de gerações acostumadas com o paternalismo do governo. É preciso aprender que é preciso trabalhar, estudar. Senão, não há como tocar a vida sem seguir dependendo. Lá, infelizmente, as pessoas estão se acostumando ao fato de o governo dar tudo. Aqui, reiniciamos nossa história, reinventamos nossa vida e fazemos de São Paulo nossa cidade e do Brasil nosso novo lar”, contou. Ao chegarem a São Paulo, por meio da interiorização da Operação Acolhida, Marifer e a filha contaram com a Cáritas brasileira e foram para um abrigo da Missão Paz, no bairro do Glicério (centro da cidade). Ficaram lá por cerca de um mês até Carlos conseguir um emprego fixo e ser possível bancar o aluguel de um apartamento para todos, na zona leste da capital. A migrante e refugiada venezuelana também ajudou outros migrantes como educadora social do programa Pana, da Cáritas, para dar apoio na acolhida dos interiorizados. “Pana é amigo, é irmão, é fraternidade. Eu e minha família nos sentimos em casa aqui. Se tem uma coisa que adoro no brasileiro é que ele sempre sorri, e isso, para os migrantes e refugiados, é muito importante”, explicou. 

“Fugi da fome, mas só consegui emprego depois da interiorização"

Cadeirante por conta de um acidente na infância, a migrante e refugiada venezuelana Gabriela Peña fugiu da fome, da escassez generalizada e da repressão política em sua terra natal. Buscou segurança no Brasil, em Roraima. Mesmo depois de finalmente ter acesso a alimentos e medicamentos, não conseguia encontrar o trabalho de que precisava para se sustentar. “Tentei muito encontrar alguma coisa – qualquer coisa. Mas era praticamente impossível”, disse a ex-agente aduaneira de 32 anos. O grande número de migrantes e refugiados venezuelanos em Roraima dificultou qualquer chance de encontrar trabalho estável por lá. Felizmente, a sorte de Gabriela mudou depois que ela, sua mãe e seu marido foram transferidos pela Operação Acolhida de Boa Vista para São Paulo. Em solo paulista, Gabriela, que é formada em Administração, foi contratada pelo departamento de Recursos Humanos de um laboratório de diagnósticos. Seu marido encontrou trabalho como mecânico de automóveis. Graças aos salários, a família alugou um modesto apartamento de dois quartos e Gabriela agora está esperando seu primeiro filho. “Aqui em São Paulo, conseguir um bom emprego é fácil”, disse. “Mas sem o voo gratuito que nos trouxe aqui, nada disso teria sido possível. A interiorização nos salvou", acredita.

“Não tem sido fácil. Tem sido estressante e intenso. Mas é preciso seguir em frente para ajudar a família.”

Dono de um fast-food de cachapas e arepas venezuelanas em São Paulo, Rafael Sanabria saiu de Caracas com a família em 2014 e nunca imaginou trabalhar na área de alimentação. Depois de alguns anos fazendo comida nas ruas, a família abriu um ponto em um contêiner e oferece refeições que mesclam a culinária venezuelana e a brasileira. “A comida venezuelana é a nossa identidade e é a melhor forma de tornar nossa tradição conhecida. Aqui saíram pratos que eu nunca teria imaginado. Tenho 28 anos e nunca tinha me ocorrido fazer a mescla desses pratos,” contou. A família participa de encontros com migrantes e refugiados venezuelanos interiorizados na Operação Acolhida, para contar sua história e ajudar no processo de acolhimento.

“Cheguei a Roraima em busca de emprego e de uma vida melhor. Hoje estou bem.

Economista e professor em duas universidades venezuelanas, o migrante e refugiado venezuelano Hector Holden atravessou a fronteira para encontrar melhores condições de vida e de emprego após a crise no País. Com a ajuda da OIM e da Operação Acolhida, fez seus documentos e recebeu vacinas, abrigo e foi interiorizado para São Paulo, onde chegou em um avião da FAB. Trabalhou em uma fazenda e agora é auxiliar de produção em uma panificadora. “Trabalho à noite, aprendo português com meus colegas de trabalho e, graças a Deus, estou bem.”, disse.

“Cheguei a Roraima em busca de emprego e de uma vida melhor. Hoje estou bem.

Ao atravessar a fronteira entre o Brasil e a Venezuela, em Roraima, o jovem Ricardo, de 18 anos, tinha dois planos: ter uma vida melhor e ajudar sua família. Apaixonado por mágica e truques de ilusionismo, o migrante e refugiado venezuelano quer ser mágico profissional e mostrar para seus familiares que consegue se sustentar e ser um profissional da área. “Quando a gente começa, nada é fácil. Mas as coisas aos poucos vão se ajeitando”, revelou o jovem, que dormiu nas ruas por dois meses até ser encontrado pela ONU e ser abrigado na Operação Acolhida. Agora, Ricardo já foi interiorizado e está em Curitiba, onde estuda e procura se aperfeiçoar. “Eu serei um grande mágico um dia, o melhor de todos”, acredita.

“Só viemos com a roupa do corpo. Toda minha vida ficou na Venezuela e agora tenho que começar do zero.”

Esneida Vega38 anos, deixou Mérida, sua cidade natal na Venezuela e buscou refúgio em Roraima com os três filhos, de 2, 11 e 15 anos. “Precisei sair da Venezuela porque trabalhava na defesa de perseguidos políticos”, explicou. Advogada, ela atuava na área de construção civil e chegou a fazer bolachas para vender em Roraima para sustentar a família. A Operação Acolhida a ajudou no processo de interiorização e a venezuelana faz parte de um grupo de imigrantes que foi para Curitiba. Ao desembarcar, ela disse estar nervosa, mas contente e esperançosa para encontrar novas oportunidades de trabalho. “Estamos numa casa alugada, recomeçando. Só que agora estou mais velha”, afirmou.