Favelas pautam finanças sustentáveis no G20 Brasil
Dentre as pautas defendidas, está a criação de um fundo de impacto social, focado em habitação, educação e empreendedorismo, bem como o apoio de bancos multilaterais para investimentos em projetos de infraestrutura na periferia dos países do Sul Global.

No Dia Nacional das Favelas (04/11), lideranças comunitárias lançaram, no Complexo do Alemão, documento com recomendações políticas aos países do G20, discutidas por mais de 300 organizações sociais que atuam em favelas do Brasil. O documento foi entregue pelo fórum social F20 (Favelas 20) a autoridades dos governos federal, estadual e municipal, com propostas de políticas públicas que conectam desafios socioeconômicos e ambientais, pensadas a partir da realidade e necessidades das comunidades de periferia.
“Nunca nos foi perguntado se, no Complexo do Alemão, os moradores preferiam acesso ao teleférico ou se preferiam maior acesso ao saneamento básico, água potável e tecnologia.”, criticou René Silva, cofundador do F20 e criador da ONG Voz das Comunidades, enfatizando a importância da participação ativa das comunidades na definição de suas prioridades. “Nossas vozes são ouvidas apenas nas operações policiais, mas hoje estamos aqui para trazer as nossas propostas, para mostrar que as favelas fazem parte da solução e podem contribuir com políticas públicas significativas”, pontuou.
Criado pela ONG Voz das Comunidades, O Favela 20 atua para levar os desafios das favelas aos líderes mundiais. Gabriela Santos, cofundadora do F20 e diretora executiva da ONG Voz das Comunidades, ressaltou que o projeto participou de conferências internacionais, como a Semana do Clima em Nova York e a Trilha de Finanças do G20. “Participar desses espaços onde a gente não tinha voz foi muito significativo, para mostrar também que o G20 está nos dando oportunidade de voz, neste momento em que conseguimos nos comunicar com outros países sobre o que acontece dentro das favelas”, afirmou Gabriela, destacando a exclusão financeira como um dos maiores desafios enfrentados por essas comunidades.
Financiamento sustentável e a criação de um fundo social

O documento propõe apoio de bancos multilaterais e nacionais de desenvolvimento para financiar projetos de infraestrutura, como saneamento, energia sustentável e conectividade. “Essas instituições, de maneira global, têm potencial de financiar projetos de infraestrutura. Elas podem fornecer os recursos necessários para melhorar as áreas de saneamento, energia sustentável, transportes, conectividade. Em finança sustentável, a economia é a base do nosso documento e da nossa conversa quando falamos sobre todas as recomendações levadas ao G20”, afirmou Gabriela.
O F20 também defende a criação de um fundo de impacto social focado em habitação, educação e empreendedorismo. “Que essa linha siga uma aliança global contra a fome e a pobreza, focando em habitação, educação e empreendedorismo de maneira geral. Esse é um dos pontos, mas tem outros que estão no documento”, explicou Gabriela, destacando a necessidade de alianças internacionais para reduzir desigualdades.
Desafios globais e o Futuro das Favelas
Erley Bispo, também cofundador do F20, enfatizou a urgência de incluir as demandas das favelas na agenda global. “Atualmente, um bilhão de pessoas vive em favelas e periferias. Se não tivermos um planejamento adequado, até 2050 serão 3 bilhões. A inclusão das favelas na agenda global é urgente para evitar novas tensões e conflitos sociais”, alegou Bispo.
A ativista Lúcia Cabral, da ONG Educa, que há mais de 40 anos dedica sua vida a ações sociais nas favelas, questionou: “não adianta a frase, esse jargão, favela é potência. Nós somos potência, mas será que realmente as pessoas acreditam nisso? Será que o jovem que está dentro da sala de aula acredita que ele é potência? Será que as empresas e as autoridades acreditam nisso”?
Lúcia se dedica às causas sociais desde os 12 anos de idade, quando escrevia cartas para migrantes do Nordeste. “Eu achava horrível, porque era como se eu fosse aquela pessoa, mas eu não era, eles se sentiam cegos diante do analfabetismo. Então, eu cresci entendendo que a educação ia mudar a realidade dessas pessoas. Por isso sempre atuei com a educação de base e, depois, a saúde; depois, direitos humanos; depois, o Educa nasce por causa da morte de 21 jovens do Alemão, em 2007”.
Para ela, o maior desafio é manter a sustentabilidade da ONG: “a gente tem que enfrentar os impostos, somos obrigados a pagar o contador, tirando tudo do nosso bolso, sem remuneração, fazemos nós por nós mesmos. Os editais são muito burocráticos, com exigências difíceis para as comunidades. Mesmo assim, fazemos a agroecologia dentro da Serra da Misericórdia, a gente tem aqui o telhado verde, mas só porque arregaçamos as mangas. Ninguém quer saber que existe uma serra que precisa de proteção, que o alemão tem uma história, uma história bonita, que começou com os índios. E o G20 Social vem conversar com o Complexo do Alemão sobre isso ", comentou, ao destacar a importância das discussões do F20 na trilha social do G20.
Empreendedorismo comunitário
A representante do Rolé Favela Geek, projeto social que nasce na favela do Fumacê em Realengo para levar cultura pop para dentro das favelas cariocas, Tainá, destacou a importância da integração de políticas públicas voltadas às comunidades de favelas. “Antes de a gente chegar no fundo do empreendedor, é importante que a gente tenha fundos de investimento em projetos culturais, em projetos de lazer, em projetos de espaços públicos dentro da comunidade que possam trazer mais segurança, mais acesso ao conhecimento e mais oportunidades de se gerar novos postos de trabalho” destacou Tainá, reforçando a importância de também se ampliar ações de capacitação voltadas a uma educação empreendedora que comece desde a escola, ensinando crianças e jovens a formarem uma mentalidade empreendedora.
Ela também destacou a necessidade de investimentos em ações culturais e seus impactos diretos no desenvolvimento do turismo e economia local. “É muito importante que haja fomento a projetos da economia criativa junto à criação do fundo social, para que o pequeno empreendedor local consiga capital para iniciar e ampliar o seu negócio. Segundo o Instituto Data Favela, 40% dos moradores das comunidades do Rio de Janeiro são empreendedores e a gente vê a dificuldade que eles têm de acessar créditos para estruturar e desenvolver seus negócios”, conclui.
Desafios e metas para o futuro
Ao final, o objetivo do F20 é garantir que as demandas das favelas não apenas sejam ouvidas, mas também se tornem prioridade nas políticas globais. O Secretário Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência, Ronald Sorriso, recebeu o documento das lideranças representando o ministro Márcio Macêdo, que não pôde comparecer ao evento pois foi convocado para uma reunião ministerial em Brasília. Macêdo enviou mensagem reafirmando o compromisso da presidência brasileira de levar a pauta das favelas para os debates dos líderes globais. “Fazer o G20 no Brasil não teria nenhum sentido se não fosse dialogando com o povo, com as organizações e movimentos sociais, mas também com as pessoas, com as comunidades de territórios vulneráveis” afirmou. Sorriso complementou: “Quando a gente recebe um debate global, como falar de um Brasil sem as favelas? De um país que tem quase 17 milhões de pessoas vivendo nas favelas? Como fazer o G20 no Rio de Janeiro, que tem quase dois milhões e meio da população residindo em favelas? Nós precisamos partir do significado que a nossa população construiu, dessa favela como solução e como resistência, apresentar para o mundo essa favela que é a solução”, afirmou.
A apresentação do documento do F20 ao G20 representa um marco para as favelas, conectando desafios locais a questões globais a partir de soluções e tecnologias sociais de alto impacto comunitário e de indução do desenvolvimento econômico por meio da inclusão produtiva e da eficácia e inovação de serviços. Colocar na pauta global o desafio de se construir novas formas de cooperação e parceria entre Estados e sociedade. Propostas que podem ser aplicadas em diferentes contextos urbanos no mundo e, portanto, cruciais nos debates globais promovidos pelo G20 Brasil.
O documento será apresentado na Cúpula Social do G20, entre os dias 14 e 16 de novembro, no Rio, três dias antes da Cúpula de Líderes do G20, que reúne chefes de Estado dos 19 países mais ricos do mundo, além da União Europeia e a União Africana, nos próximos dias 18 e 19 de novembro também no Rio.
Também participaram do evento José Henrique, gerente de projetos na trilha de finanças do G20, e Mariana Davi, coordenadora de projetos na trilha de finanças do G20, além de representantes da prefeitura e do governo estadual do Rio de Janeiro.
Com informações da Secretaria Geral da Presidência da República do Brasil